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9th Jan 2012 from Twitlonger

Cenários 2012 Holland prevê pressão menor sobre preços

Por João Villaverde | De Brasília

A forte pressão sobre os preços em 2011 não se repetirá este ano, diz Márcio Holland, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda

Valor, 09-01-2012

A inflação de 2011 foi um ponto fora da curva, e a forte pressão sobre os preços não se repetirá em 2012 e nos demais anos do governo Dilma Rousseff, disse Márcio Holland, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, em entrevista ao Valor. Este ano, o desempenho do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passará a se basear sobre a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) atualizada, o que deve reduzir a taxa de inflação em até 0,4 ponto percentual.

Além disso, choques internacionais, como o de commodities, não devem se repetir na mesma intensidade, bem como problemas internos, como as elevações de preços do etanol e do setor de carnes, decorrentes de reestruturações das companhias dos dois segmentos, tendem a arrefecer já em 2012.

"Superamos um ano extremamente desafiador para a economia brasileira", afirma Holland, em referência à "complexa combinação" de 2011, quando o choque internacional de preços das commodities, iniciado no fim de 2010, se somou à instabilidade política da principal economia mundial, os EUA, e às dúvidas quanto à sobrevivência da zona do euro.

"Ainda assim, conseguimos fechar o ano com inflação dentro do intervalo do regime de metas, e com a entrada de US$ 65,3 bilhões de fluxo cambial", diz Holland, que é pós-doutor em economia pela Universidade de Berkeley (EUA).

A economia brasileira suportou choques de preços em itens muito sensíveis ao consumidor brasileiro, como algodão e o etanol, que é misturado ao combustível dos veículos em circulação no país. Enquanto o preço algodão em caroço saltou 107% ao longo de 2011, o etanol ficou 15,7% mais caro.

A elevação do valor do algodão foi tão dramática que provocou forte aumento de 8,3% em vestuário, mesmo com o alto grau de penetração de importados chineses e paquistaneses. "Os preços de vestuário cresceram acima do IPCA, mesmo em ano de IPCA salgado, e isso ocorreu em um setor com os maiores índices de importação do Brasil", afirma o secretário.

No caso do etanol - e também nas carnes -, o Ministério da Fazenda entende que há um processo de reestruturação do setor, iniciada após a crise mundial de 2008, com fusões e aquisições entre as empresas. "A crise mundial pegou os dois setores altamente alavancados, preparando grandes investimentos", explica Holland. "No processo de renovação iniciado em 2009, muitos canaviais, no caso do etanol, não foram ampliados por novos investimentos, algo que começou a ocorrer apenas no ano passado. Isso será impulsionado agora, com novos estímulos [do governo, concedidos em 2011]."

Além disso, o secretário aponta choques associados à metodologia de cálculo ou nível de informação fornecida pelos agentes econômicos. Nesse caso estão as passagens aéreas, que registraram elevação de 52,9% no ano passado, e as tarifas bancárias. Enquanto as passagens aéreas subiram fortemente pela metodologia do IBGE, que calcula o IPCA, pelo modelo adotado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), as passagens ficaram 17% mais baratas.

Pelos cálculos da secretária de Política Econômica, os bilhetes aéreos representaram 0,2 ponto percentual do IPCA. Ou seja, a inflação oficial de 2011 seria de 6,3%, e não de 6,5%, caso as passagens ficassem estáveis ao longo do ano.

O salto do IPCA entre setembro de 2010 e abril de 2011, decorrente do surto de preços das commodities, não foi um fenômeno brasileiro. Holland trabalha com uma lista de 38 países, entre desenvolvidos e emergentes, em que todos, sem exceção, terminaram 2011 com taxa de inflação acima da meta perseguida.

Na Turquia, a meta era de 5,5%, mas a taxa ficou em 10,5%. No Reino Unido a inflação terminou em 4,8%, muito acima da meta de 2%. Mesmo caso do Canadá, cuja taxa de 2,9% é quase um ponto percentual acima do teto da meta, e dos EUA, onde a meta informal de inflação em torno de 2% ao ano foi descumprida - a inflação ao consumidor terminou o ano em 3,4%.

"Trata-se de um fenômeno mundial, todos passaram por essa transição em 2011, e agora os preços vão começar a se acomodar", afirma Holland, para quem foi fundamental para o desempenho do IPCA não furar o teto da meta o fato de a economia brasileira ficar "relativamente insular" aos problemas mundiais. Nem a apreciação do real em relação ao dólar nos primeiros oito meses do ano passado foi capaz de neutralizar a forte elevação de preços das commodities. "A apreciação não foi proporcional a essa transmissão de preços", diz.

Na avaliação do secretário, uma parte muito razoável da aceleração do IPCA entre 2010, quando a taxa fora de 5,9%, e 2011, decorreu do modelo de crescimento econômico brasileiro. A opção pelo crescimento impulsionado pela demanda agregada (investimento e consumo doméstico) produziu drástica queda nos índices de pobreza, em decorrência dos incrementos salariais e da expansão do mercado de trabalho.

O rendimento médio real obtido pelo trabalhador brasileiro aumentou 5,2% no ano passado, depois de subir 7,5% no ano anterior. De 2003, início do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, até agora, o salário mínimo saltou 66% em termos reais (já incorporando o mínimo deste ano, de R$ 622).

Apoiando-se em dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), Holland aponta que a taxa de pobreza, isto é, o número de brasileiros pobres como proporção do total da população, caiu dos 35% a 30% do governo Fernando Collor (1990-92) para 28%, em 2003, e agora ronda os 12%.

"Isso tem um custo, uma vez que cada vez mais pessoas são incorporadas ao mercado, pressionando os preços de serviços, que não sofrem competição com importados", diz Holland, para quem esse é um custo que o Brasil tem, em troca da resolução de grave problema social. "Um dia teríamos que pagar esse custo, e a inflação ficar 0,5 ponto percentual maior por causa disso, convenhamos, vale a pena."

Essa mudança na forma como a sociedade estrutura seus hábitos de consumo será incorporada, a partir deste mês, nos cálculos do IPCA, que passam a usar dados da mais recente Pesquisa de Orçamento das Famílias (POF), do IBGE, realizada entre 2008 e 2009. A inflação oficial de 2011 foi a última a ser estimada com base na POF de 2002 e 2003.

"Tudo aquilo que não consumíamos nos anos 1990 passamos a consumir agora, e a oferta, em serviços, não acompanhou o ritmo. Estamos vivendo a primeira etapa desse ciclo de transição do consumo, que passa por uma sociedade mais sofisticada", diz Holland.

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Inflação deve cair, mas sem atingir centro da meta

Por Sergio Lamucci e Tainara Machado | De São Paulo

O cenário para a inflação neste ano deverá mais tranquilo do que o de 2011, contando com um comportamento mais favorável dos preços administrados e alimentos. A maior parte das previsões aponta para IPCA entre 5% e 5,5%, abaixo dos 6,5% de 2011, quando o indicador fechou no teto da meta perseguida pelo Banco Central. Além disso, a reponderação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), feita com base na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2008/2009, deve tirar de 0,2 a 0,4 ponto percentual do indicador, estimam analistas.

Para dificultar a tarefa do BC, há o grupo de serviços, formado por itens como aluguel, empregado doméstico e mensalidade escolar. O mercado de trabalho aquecido, a aumento, na casa de 14%, do salário mínimo e a melhora estrutural da renda nos últimos anos tendem a manter os serviços sob pressão, impedindo que o IPCA caia para o centro da meta, de 4,5%.

Os preços administrados (como tarifas públicas) são a grande aposta dos economistas para um IPCA mais moderado em 2012. "As tarifas de transporte público não devem sofrer reajustes tão intensos, e teremos também revisão de tarifas de energia, que podem contribuir para um comportamento mais ameno dos preços monitorados", diz o professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio.

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Num ano de eleições, muitas prefeituras não devem reajustar as passagens de ônibus, como a de São Paulo, que em 2011 promoveu aumento de 11,1%, diz o economista Fabio Romão, da LCA Consultores. Além disso, a revisão tarifária de distribuidoras de energia pode até provocar queda das tarifas. Para Romão, os administrados devem subir 4,3% em 2012, bem abaixo dos 6,2% do ano passado.

O grupo alimentação e bebidas também pode dar algum refresco neste ano. O economista Fabio Ramos, da Quest Investimentos, acredita em alta de 6%, inferior aos 7,2% de 2011. Preços de commodities comportados devem ajudar.

Em relatório, Myriã Bast, do Bradesco, lembra que o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) mais baixo - 5,1% em 2011, bem menos que os 11,3% de 2010 - vai contribuir para segurar um pouco os administrados. Hoje, muitas tarifas públicas não são mais corrigidas automaticamente pelos IGPs, mas a inflação passada continua a ter peso na definição desse grupo.

Ramos também espera comportamento tranquilo dos preços de bens duráveis (como carros e eletroeletrônicos). Em 2011, esse grupo teve deflação de 1,56%. Ele não espera tombo semelhante - trabalha hoje com estabilidade dos preços-, mas vê aí um grupo de produtos que vai colaborar para conter a inflação. A Quest e o Bradesco projetam IPCA de 5,3% em 2012. A LCA, mais otimista, aposta em 4,8%, em parte por esperar alta de 5% dos alimentos, inferior aos 6% projetados pela Quest.

Se preços administrados, alimentos e duráveis devem auxiliar o BC, os serviços tendem a continuar muito pressionados. O mercado de trabalho forte dificulta uma desaceleração mais significativa desses preços. Romão espera que os serviços subam 8,2% em 2012 e Ramos, 8%.

"O efeito da política monetária é muito lento sobre a inflação de serviços. Teria que ser uma alta de juros muito forte, o que afetaria muito outras áreas mais sensíveis, como a indústria", observa Cunha. "E temos ainda o que é inflação benigna, de certa forma. O empregado doméstico, por exemplo, subiu 11,38% em 2011, após alta superior a 10% em 2010. Isso tem um efeito do ponto de vista social muito importante. Além disso, a incorporação de milhões de pessoas à nova classe C pressiona a demanda por serviços e, ao mesmo tempo, é essa nova classe social que fornece esses serviços, e eles estão sendo mais bem remunerados."

Nesse cenário, diz ele, "é difícil combater a inflação de serviços só com política monetária. O lado positivo do novo Brasil tem tudo a ver com a inflação de serviços pressionada."

Cunha não acredita na convergência da inflação para 4,5%. "Isso só ocorreria em duas situações: se a crise na Europa se agravasse muito e se o governo não tomasse medidas contracíclicas para conter os efeitos da crise no Brasil", diz ele, para quem as duas hipóteses são improváveis.

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Incerteza marca projeções para investimento

Por Sergio Lamucci | De São Paulo

Previsões para o investimento em 2012 são díspares, variando de uma alta de 4% a uma expansão de 8,2%


Depois do desempenho decepcionante em 2011, o investimento entra em 2012 num cenário marcado pela incerteza. As projeções para a formação bruta de capital fixo (medida das contas nacionais do que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos) são díspares, oscilando de 4% a pouco mais de 8%. Para os mais otimistas, a queda dos juros reais e a aposta na aceleração dos investimentos da União, no avanço das obras ligadas à Copa do Mundo e à Olimpíada e na intensificação dos projetos relacionados à exploração do petróleo na camada de pré-sal justificam a crença numa recuperação mais forte em 2012.

Na contramão, os riscos vêm do cenário externo bastante turbulento, que abala a confiança dos empresários, e a situação delicada da indústria de transformação. Em 2011, o crescimento deve ter ficado na casa de 4% a 5%, bem abaixo da expansão próxima de dois dígitos esperada no fim de 2010, ano em que houve alta superior a 21%. O ciclo de aumento dos juros - já revertido -, o recuo do investimento público e o aumento das incertezas externas contribuíram para esse resultado frustrante.

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A maior parte das previsões para o investimento em 2012 se concentra na faixa de 4,5% a 6,5%. O economista Aurélio Bicalho, do Itaú Unibanco, projeta expansão de 4,5%. O número não parece muito animador, mas esconde uma trajetória de recuperação ao longo de 2012, diz ele. Para Bicalho, os juros reais (descontada a inflação) em níveis baixos para padrões brasileiros - na casa de 4% - e a retomada dos investimentos públicos devem fazer a formação bruta puxar a demanda no segundo semestre de 2012. "Os 4,5% são um número um pouco enganoso."

O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, aposta numa alta do investimento de 4% em 2012, abaixo dos 4,5% deste ano. No entanto, a exemplo do que vai ocorrer com o PIB, a formação bruta de capital fixo estará "contaminada" pela baixa herança estatística (o "carry over") que 2011 deixará para o ano que vem.

No caso do investimento, o carry over será negativo em 0,5%, o que significa que, se não crescer nada em relação ao nível do fim deste ano, a formação bruta encerrará 2012 com queda de 0,5%. Para chegar a 4%, o avanço trimestral médio do investimento terá de ser de 2% sobre o trimestre anterior, feito o ajuste sazonal. Já os 4,5% de 2011 embutem uma alta trimestral média de apenas 0,3% - a diferença é que a herança de 2010 para 2011 tinha sido expressiva.

"Estamos projetando forte aceleração do PIB e da formação bruta de capital fixo ao longo de 2012, especialmente do segundo trimestre em diante", diz Borges, que prevê crescimento do PIB de 3,1% no ano que vem. Para ele, cinco fatores devem levar à aceleração do investimento: a aposta na redução da incerteza externa, o efeito defasado da queda dos juros, o aumento dos investimentos da Petrobras e da Eletrobrás, a elevação dos investimentos da União e o impulso das obras de infraestrutura pelo setor privado por causa das concessões, como as de aeroportos.

A MB Associados e o Bradesco têm as previsões mais otimistas para o investimento em 2012, de 8,2% e 7,8%, pela ordem. O economista-chefe da MB, Sérgio Vale, porém, diz que a sua previsão depende de "nada exótico ocorrer na Europa". Segundo ele, uma ruptura, como uma saída da Grécia da zona do euro, "pode reverter esses números para o negativo". Uma recuperação mais firme só se sustenta com alguma melhora da situação europeia. "Se isso ocorrer, a retomada das expectativas será imediata, ainda que não se traduza em maior crescimento na Europa. Isso pode atrair mais investimentos das empresas europeias que não terão oportunidades de crescer por lá".

Vale vê um investimento muito concentrado em setores ligados a commodities e à infraestrutura. Na indústria manufatureira, há uma grande perda de competitividade, exacerbada nos últimos anos pelo câmbio valorizado.

O diretor do departamento de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, reconhece que, "em função dos ruídos da crise europeia, existe um contágio de expectativas dos empresários, que pode estar afetando o processo decisório de investimento". Ainda que os projetos não sejam abandonados, a crise pode levar a uma reavaliação do timing de alguns. Barros, contudo, acredita que a formação bruta "seguirá relativamente insensível à desaceleração de curto prazo na economia", crescendo mais que o PIB e que o consumo das famílias.

Segundo ele, alguns segmentos de fato vão se destacar, como o de infraestrutura, mas a sondagem do Bradesco de anúncios de investimentos mostra um grau de difusão de 74% em novembro, o que significa que, dos 50 setores acompanhados no levantamento, em mais de 70% há intenção declarada de investir. "A decisão de investimento, de um modo geral, tem horizontes de médio e longo prazos, que independem da desaceleração cíclica que observamos no momento. E as perspectivas para o Brasil seguem favoráveis", diz Barros, que projeta um crescimento do PIB de 3,7% em 2012.

Na virada do ano, o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, reviu a sua projeção para a formação bruta, que passou de queda de 0,4% para alta de 5,2%. Ele mudou bastante a sua visão sobre o investimento privado (no qual inclui as estatais). Primeiro, por acreditar que a Petrobras, em especial, vai investir mais, dada a intenção de Dilma Rousseff de acelerar a formação bruta de capital fixo em 2012.

Além disso, Gonçalves considera que o BNDES deverá voltar a ter papel mais ativo do que no ano passado, ampliando a oferta de recursos ao setor privado. Segundo ele, a situação fiscal tranquila, sem riscos de solvência, abre espaço para que o Tesouro faça empréstimos de R$ 30 bilhões a R$ 40 bilhões ao banco de fomento sem que isso levante dúvidas sobre a saúde das contas públicas. Nesse quadro, ele passou a apostar que o investimento privado crescerá 4,9% neste ano, e não recuar 2,3%. Gonçalves mantém o otimismo quanto ao investimento público, estimando uma alta de 6,6%. A questão é que o governo federal investe pouco, não muito mais que 1% do PIB.

O economista-chefe do BNDES, Fernando Puga, acredita numa retomada do investimento em 2012, mas não projeta números exuberantes. Para ele, a formação bruta de capital fixo deve crescer 6,5% no ano que vem. "O investimento público deve ter uma cara bem distinta do que foi 2011."

O governo colocou o pé no freio neste ano para segurar a política fiscal, mas agora deve acelerar as obras, também impulsionadas pela proximidade da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016. "Os juros mais baixos também podem dar um alento grande para o investimento residencial", afirma ele, referindo-se ao fato de que a queda das taxas barateia o crédito imobiliário.

Ele cita como um grande trunfo a vitalidade do mercado interno, que atrai empresas de outros países, em setores como o automobilístico, e as perspectivas positivas no setor de petróleo e gás. Segundo levantamento do banco, dos R$ 603 bilhões a serem investidos na indústria de 2011 a 2014, 63% são desse segmento. Uma das expectativas de Puga é que o investimento no setor de petróleo dinamize outros segmentos.

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